terça-feira, 16 de maio de 2017

Amar Demasiado


Eu sei, Amor
Que quando Amo, Amo demasiado
Eu sei, Amor
Que tantas vezes exagero no Amor dado
É que, sabes, Amor
No meu Afecto por ti nunca travo nem penso
Antes, deixo-o ir para onde ele queira
É que sabes, Amor
Para mim Amor é loucura
Não é contenção nem deserção
Por isso quando chega
O Amor bate forte
E sabes, Amor
É assim mesmo que eu gosto dele
E tudo estava bem. Para mim
Afinal, era só para mim….
Mas ai quando senti
O restringir do teu afecto por mim
O bater forte do meu coração parou
Como se nunca tivesse batido
E a erupção dos meus sentimentos cessou
Como se nunca tivesse vertido
E já não consegui correr para ti
E já não consegui sequer olhar para ti
E tanto que te Amava….
Mas sabes, Amor
Não me sinto culpado
Nem triste, nem sequer angustiado
Mas antes feliz…
Por te ter Amado
Como nunca ninguém te Amou

domingo, 14 de maio de 2017

Transilvânia (3 de 3)


Quando desperto julgo estar no Reino das Profundezas. Mas com medo do capeta não abro os olhos.
O primeiro sentido a apurar é o do olfacto. Olha que o raio do capeta cozinha mesmo bem, se a comida souber tão bem como cheira!
O segundo sentido é o do tacto, pois quando coloco a mão na minha testa descubro que tem um pano a cobri-la.
Será que os capetas enfaixam os pobres desgraçados que lhes calham? Nunca tinha ouvido dizer…
Abro os olhos num repente e vejo apenas uma mulher a cozinhar, com um filhote ao tiracolo. Eles os dois não se parecem nada com seres das profundezas.
Olho em redor e vejo que estou numa cabana de chão batido, rudemente construída.
As frechas das tábuas das paredes deixam passar a luz do fim da tarde, e a comida está a ser feita numa simples fogueira no centro da habitação.
Desperto num supetão. Mas onde raio estou eu afinal? E quem é esta gente?
Mas ao tentar levantar-me as forças faltam-me. E apago. Outra vez…. Isto está a tornar-se um hábito….
… | …
Acordo numa cama de hospital na capital do país, a centenas de quilómetros de onde tinha estado.
Ao meu lado está um tipo que até pelo pigarrear topo que é português. Um engravatado da Embaixada.
Diz-me que os contactaram ao descobrirem a minha nacionalidade, que eu estava bastante ferido e não sabiam mais o que fazer, e tinham receio que me finasse lá por aquelas bandas.
Ainda estou a conversar com o tipo quando olho para o lado e me assusto de morte, pois no quarto acaba de entrar um dos mal encarados que me queriam fazer mal, lá nas montanhas!
Eu tentei-me levantar um pouco mais os braços para me defender mas não consegui. Estava espantosamente fraco.
O mal cheiroso cumprimenta o tipo da Embaixada. Conheciam-se. Compreendi então que foram esses tipos que telefonaram….
Eles não eram, de todo, os maus da fita!
E eu a julgar que as estacas de madeira e as balas de prata que vi no automóvel deles eram-me destinadas.
Afinal eles andavam a caçar era outro tipo de bicho….
… | …
Estava então de regresso à nacional pátria, desta vez de avião. Um verdadeiro luxo para mim, pois o meu modo de viajar mais habitual é na cabina de camiões TIR.
Sentia-me realmente muito triste por ter estado na Transilvânia e de não me lembrar de nada. Rigorosamente de nada!
Era como se tivesse tido uma forte amnésia desde que tinha entrado naquela região, e que me tivesse deixado apenas fragmentos de visões, muito sombrias, por sinal.
Tinha percorrido as suas frondosas florestas, é certo, mas a maior parte do tempo passado a fugir de caçadores de seres imaginários e de lobos. E pouco mais.
Restava apenas tinha uma prova de que lá tinha estado!
…. dois pequenos furinhos no pescoço……
(fim)

quinta-feira, 11 de maio de 2017

Transilvânia (2 de 3)

Desde o meio do dia que uma fera me perseguia através do mato, a rosnar.
Ela sentia o meu sangue a sair dos meus muitos ferimentos. E o sol já estava bem baixinho, projectando sombras cada vez mais longas.
Ela ainda não me tinha atacado porque não sabia se eu era uma presa fácil ou se, pelo contrário, representava uma ameaça.
Assim, perseguindo, cansava-me, piorando os ferimentos.
Ao fugir no meio da noite dei um tombo feio num morro qualquer, e a ferir-me bastante, senti logo que só com muita sorte não seria detectado por algum tipo de predador.
E isso era coisa que eu já tinha gasto há muito, e não me tinha surgido mais nenhuma entretanto.
Ainda não sabia que animal me perseguia, mas pelo rosnado não era com certeza coisa boa.
Mas com tanto bicho mau naquelas montanhas, era só uma questão de tempo até algum me tentar comer.
Anoiteceu por fim e num repente recusei-me a andar mais. O meu sangue ensopava-me a roupa toda. Sentei-me e gritei-lhe: “Se me queres comer come, Cabrão!
A fera rugiu em resposta, e pelo refolhar da vegetação tinha começado a andar à minha volta, num círculo largo, que sabia, ia-se estreitando cada vez mais.
Apesar do meu cansaço extremo, sentia a adrenalina ainda a bombear o meu corpo, tornando-me virtualmente invencível. Mas temia sucumbir…..
Dei por mim a ajeitar-me como se me preparasse para dormir. Ou para morrer.
Os meus olhos teimavam a fechar-se cada vez mais, mas ainda assim via a fera a aproximar-se aos poucos….
Eu estava plantado no chão, braços caídos e pernas estendidas. Era só uma questão de tempo até saltar-me para a jugular. E aí tudo terminaria.
Confesso que nunca imaginei acabar assim, sozinho, ferido, comido pelos bichos. Acho que nunca ninguém imaginou um fim destes para si próprio….
De súbito, senti que se fosse assim, morreria sozinho, e ninguém saberia mais de mim!
Num último acesso de fúria abri os olhos e encarei a fera quando esta se preparava para dar o bote!
Ela penetrou nos meus olhos impregnados de fúria e cheia de dúvidas hesitou, recuando ligeiramente.
Nesse entretanto agarrei um pau comprido e apoiando-me nele, levantei o meu corpo cansado, pondo o meu pescoço fora do alcance dos afiados dentes da fera.
Esta rosnou alto, parecendo um lamento verdadeiramente humano, e de tal forma o fez que me arrepiou o que ainda não estava arrepiado no meu corpo!
Vi então a fera com olhos de humano e não de animal acossado que eu era quando dela me apercebi.
Era apenas um lobo jovem, mas letal, sem dúvida.
Mas eu sentia que estava fraco demais para estar de pé, e a adrenalina ajuda mas não substitui o imenso sangue que entretanto tinha perdido, e começo a perder os sentidos….
Se nem me apercebo de que estou a cair, muito menos me apercebo que a fera foge, assustada com alguma coisa, perigosa até para ela…
E acabo tombado no chão, como mais uma árvore na floresta….
(continua)

quarta-feira, 10 de maio de 2017

Transilvânia (1 de 3)

Orgulho-me de dizer que já nasci aventureiro!
Lembro-me de em petiz pisgar-me lá de casa e ir sei lá para onde. É que bastava uma nesga na porta da rua e lá ia eu….
Os tempos eram outros e claro que eu não ia longe, pois era topado e devolvido à procedência, sem mais delongas e chatices.
Não é que eu não gostasse de casa ou dos meus pais. Era sim o apelo do desconhecido que me era irresistível.
Com a juventude veio a porta aberta e já não me devolviam à procedência. E aproveitei para ganhar o mundo, com a bênção paterna. Não tinham outras hipóteses.
E ao procurar o mundo visível, aproximou-se de mim foi o oculto, especialmente o das criaturas fantásticas. E isso despertou-me instintos ainda mais aventureiros.
Num qualquer verão estando eu plantado na estação de comboios de um vilarejo do centro da Europa, deparei-me com o esquema de circulação de comboios da zona.
Um ramal esquecido seguia para nordeste, para uma região montanhosa e manhosa por natureza. Mesmo daquelas que eu gosto.
E assim apanhei o comboio para a Transilvânia, com um sorriso tão fino nos lábios como nunca tive!
E com um pôr-do-sol delicioso adormeço no comboio, mais vazio que a minha carteira, num banco de pau, como nos velhos tempos.....
… | …
Acordo com uma gritaria infernal de uns tipos que me ladeiam, aparentemente pelo estúpido do condutor se ter enganado no percurso.
Sinceramente não percebo nada do que se está a passar nem do que dizem, mas isso no fundo é o menos. É que quero lá saber do seu linguajar.
A verdade é que não tenho ideia como vim parar dentro daquele automóvel a cair aos bocados, no meio de um verdadeiro grupo de trogloditas, com caras de poucos amigos.
Tentando não demonstrar medo, apercebo-me que é noite lá fora, e que a caquéctica viatura cheira a tudo, menos a coisas boas e agradáveis. E transporta estranhas armas. E à vista!
E incomoda-me constatar que os piores cheiros não vêm verdadeiramente do automóvel mas sim dos seus ocupantes, nos quais eu me incluo, sem nenhuma ponta de orgulho.
Mas não me ouso queixar, pois no fundo vou bem sentadinho, apesar de mais espremido que uma laranja da Bahia em máquinas de sumo.
É que consigo imaginar situações muito piores que esta, tal como viajar amarrado no capot ou na bagageira. Ou mesmo ir a pé por este desolado e desabitado lugar, no meio da noite.
De repente o automóvel pára e eles enxotam-me do seu interior, com uns gestos que não se me augura nada de bom…
Começam a falar uns com os outros, e pela forma como me olham, claro que estão a falar de mim. E eu a topar tudo mas sem compreender nada.
O romeno aldrabado e com sotaque é lixado, pois se tens esperança de reconhecer algumas palavras, da estrutura não percebes pevide. E apenas podes ler as caras deles, mais nada.
Os tipos sentam-se à volta de uma fogueira a descascar fruta com umas naifas de meter medo ao susto. E eu a pensar que se a fruta é para a sobremesa, eu vou ser o prato principal!
Bem bebidos, começam a dizer merdas uns aos outros, empurrando-se e rindo muito das suas piadas incompreensíveis.
Já tinha visto que eles de espertos tinham muito pouco, razão pela qual nem se lembraram de me amarrar. Mas de súbito arrepiei-me!
Eles não precisam! São quatro manfios com um aspecto “Deus me Acuda”, no meio de uma floresta de montanha, e eu nada conheço daquelas bandas.
Assim, eu iria fugir para onde? Ainda por cima numa noite escura para caraças, e se houvesse luar, as nuvens fantasmagóricas estariam a cobri-lo totalmente.
De repente dois deles começam a andar à pancada na brincadeira, acho eu, e os outros, já fortemente tocados, desatam a rir. E eu, em vez de me por a rir também, fugi!
Aquelas bestas ainda foram atrás de mim, aos gritos e aos tiros para o ar, mas eu já estava deitadinho num buraco, no meio de uma moita.
Ainda os ouvi lá ao longe durante mais algum tempo, enquanto ia à minha vida, no sentido contrário.
"Raio que vos partam, malucos de merda!"
(continua)

quinta-feira, 4 de maio de 2017

EU SEI - ANDREIA Capítulo Final (5 de 5) FIM


E o André,  sem dizer uma única palavra, disse tudo. E sem dizer uma única palavra levantou-se, saiu e nunca mais o vimos.
De repente compreendi que era isso. O porco do Ivo estava a fazer exactamente o mesmo jogo que fez o André. E tantos e tantas fizeram ao longo dos incontáveis séculos!
Era comigo que o Ivo fingia. Eu era o engodo, o seu passatempo. Continuava a amar incondicionalmente a Sónia, mas há falta do melhor, demonstrava gostar de mim! Que grande otária estava a ser.
Senti o chão ali mesmo a fugir-me debaixo dos pés. Nesse instante vi que o tinha perdido. Mas será que se pode perder quem nunca se teve?
Mas a verdadeira questão era: importava-me? E a resposta veio rápida: sim, importava-me. E muito! Mas no fundo o que é que eu podia fazer? Nada. Absoluta e rigorosamente nada. Restava-me assistir ao resto da encenação como uma mera espectadora, não como actriz.
Nesse exacto momento o Ivo remexeu-se na sua cadeira, e percebi a analogia. Vocês sabem: quanto mais a mosca se debate na teia mais presa fica. E a aranha sabe que se aproxima o momento fatal.
A mudança de comportamento do Ivo foi tão notória que até me deu pena. Quando estávamos os quatro, ele estava tão tenso como uma corda esticada num violino, e nem se incomodava de disfarçar que estava com uns ciumes incríveis, não me dando quase nenhuma atenção. E sem notar que estava a ter esse comportamento. Ou sem se importar......
Ao ver o André sair, Ivo relaxou, mas apenas por uns poucos segundos. Nem ele nem eu esperávamos pela fantástica jogada de mestre da Sónia…que, soube depois, estava de conluio com o José, o tipo que tinha telefonado para o André!
A Sónia levantou-se de supetão, nitidamente a fingir que ia a correr atrás do André, e acto contínuo, o Ivo levanta-se e agarrando-lhe o pulso, diz num tom alto e impositivo “Mas o que é vais fazer? Nem penses. Ficas aqui! Comigo! Ouviste?” E levantando os olhos, fita-me.
O jogo de olhares entre nós os três foi brutalmente esclarecedor.
A Sónia sorriu levemente. O jogo estava terminado. E ela tinha ganho!
Ao ver que a Sónia tinha desistido de ir atrás do André, Ivo larga-a, e deita-se no sofá. Entre lágrimas que desamparadas lhe escorriam cara abaixo, olha para o tecto como se estivesse a fitar um céu estrelado, e diz:
Só o ciúme me conseguiu dizer o quanto te amo, Sónia, e o quanto estava enganado acerca de outros sentimentos.” E ao dizer isto levanta-se e fecha-se no quarto, saindo da sala, saindo da minha vida….
O silêncio que caiu na sala foi insuportavelmente pesado.
A noite começara com um alegre jantar de casais, e no fim ficámos as duas, apenas as duas, e sem sequer nos olharmos….
Sem aguentar mais, aproximei-me da cara de Sónia e disse-lhe:
Grandessíssima cabra, manipulaste tudo e todos. E o mais estúpido é que não te impedi. Até te ajudei!” continuei, já num tom que mais parecia um grito de revolta.
O Ivo foi e sempre será um pobre desgraçado debaixo das tuas garras imundas! E o pior é que queres ficar com ele por se ter ousado aproximado de mim, e só lhe irás infernizar eternamente a vida!”
E a Sónia, voltando-me as costas de forma a que não lhe pudesse ver os olhos a brilhar com a mais pura das malícias, disse....
"Eu sei…… Mas nós as duas sabemos bem que é disso que ele mais gosta...."

"Eu sei", disse-lhe baixinho. "Eu sei...."

fim

quarta-feira, 3 de maio de 2017

EU SEI - ANDREIA Capítulo Final (4 de 5)


O tal Jantar ficou assim combinado, tal e qual como a "Aranha" quis e bem entendeu. O Ivo julgava que estava a liderar o processo, mas na realidade estava apenas a seguir sugestões da Sónia. Ai se eles sequer imaginassem como eu me estava a sentir....
Sabia que estava prestes a perder as duas pessoas por quem nutria sentimentos muito fortes. E sabia também era completamente impotente para fazer algo que pudesse travar isso.
No entanto podia ter aberto o meu coração com o Ivo e dizer-lhe dos meus sentimentos, mas para isso era incontornável falar-lhe da Sónia. E do que eu lhe diria dela. Será que ele compreenderia? Sentir-se-ia traído? Eu sentir-me-ia.....
Temia igualmente que o Ivo me dissesse que continuava a amar a Sónia, inviabilizando qualquer hipótese com ele. Assim, preferi continuar na ignorância. Podia ser que assim custasse menos......
Mas sabia no intimo que era já demasiado tarde para nós os dois, pois ele iria ser apanhado. Ou então já estava, e nem sabia o que lhe iria acontecer.
Quando no Jantar vi o André, não sei se por ciúmes ou não, detestei-o. Visceral. Ele podia ser a melhor pessoa do mundo, mas logo que o vi sabia que não o suportava.
Poderia ser sugestão mas notei no André algo que parecia escapar à Sónia. Ou não…..

Quando entrei vi o André e a Sónia agarrados. Pareciam estar a dançar, mas parece que se desentenderam, pois largaram-se rapidamente. E reparei que ele ficou com uma expressão muito estranha. Mesmo muito estranha....
No decurso do Jantar (que até nem estava a correr mal, dadas as circunstâncias), o André foi confrontado com o seu passado. A Sónia tinha mesmo tudo estudado. E todos os outros eram simples marionetas.
André, conta-me do teu desgosto amoroso. Ouvi dizer que foi maravilhosamente trágico”, disse a Sónia com uma suavidade arrepiante, num tom que parecia ter sido tirado de um qualquer livro do Romantismo Português do Século XIX.
Os olhos de André passaram do espanto ao profundamente tenebroso, para voltarem ao maravilhoso para por fim terminarem num ódio por estar a passar por aquela provação, completamente inesperada.
Preparava-se para responder quando tocou o seu telemóvel. A contra gosto e depois de pedir desculpa, o André atende, referindo para si como sendo de um número privado.
A sua cara transmutou-se quando reconheceu quem lhe ligava: “José??? Mas que raio me queres tu, filho de uma p….,?? Calma? Mas tu o quê, queres-me dizer onde está a Lúcia? Mas….. porquê???
Recebida a informação a chamada é imediatamente desligada por parte do tal José. André tira os olhos do telemóvel e vê que todos estamos em suspenso a olhar para ele. Lentamente fita a Sónia, e o seu olhar soa inevitavelmente a despedida. Os olhos dele brilhavam, sorriam, deslumbravam. Era um outro homem!
Tal como eu tinha suspeitado, o André não estava perdido de amores pela Sónia. Na verdade nunca a tinha amado. Ela era apenas um engodo, um passatempo. A Lúcia é que é a sua “tal”, e que tanto esteve presente neste jantar, e sem nunca termos dado por ela….
(continua)

terça-feira, 2 de maio de 2017

EU SEI - ANDREIA Capítulo Final (3 de 5)


Coloquei a morada no sistema da empresa e apareceu a foto de um tipo. E quase sem espanto vi que o conhecia bem! E bem demais. Era o Ivo. O “meu” Ivo. O tal tipo.
Sorri. E depois larguei-me a rir. Mas depois parei. Seria coincidência?
Pus-me a pensar nas nossas conversas e na verdade o Ivo nunca me tinha contado nada acerca da sua vida pessoal.
No princípio achei que ele era apenas reservado, mas sempre desconfiei que era bem mais que isso, mas não o tenho forçado para me dizer mais sobre ele. Talvez tenha chegado a altura.
Continuava sem saber a razão pela qual não tinha contado do Ivo à Sónia e da Sónia ao Ivo. Sentia que estava a enganar os dois, ou então a ser enganada…..
Apesar de ciente que a Sónia ia ficar furiosa comigo quando lhe contasse que andava a sair com o seu ex-namorado, resolvi abrir o jogo.
Assim, quando tomei coragem e lhe contei, ela sorriu e colocando as suas mãos nos meus ombros disse “Eu sei”.
Espantada, recuei, para ouvir o que não queria. “Porque é que achas que me tornei tua amiga? Pelos teus lindos olhos?
Fiquei siderada e revoltada. Apeteceu-me mesmo esbofeteá-la, mas não consegui. Estava completamente feita em pedra. E por dentro furiosa.
A Sónia aproximou-se de mim e disse, num tom ríspido “Eu sei desde o início que vocês andam juntos. E agora considero que vocês os dois me andam a trair. E quero acabar com isso. Eu quero o Ivo só para mim, por isso afasta-te. Baza da vida dele.”
E vendo os meus olhos faiscantes, abriu os olhos para mim, e atirou “Queres mesmo competir comigo? Achas que aguentas?” e trocista, perguntou “Achas mesmo que estás à altura deste desafio, garota?
Eu coloquei as mãos nas ancas e disse, em tom provocador “Fica tu com ele pois eu não o quero para nada. E informo-te que sou só amiga do Ivo porque quero que seja feliz, pois ele merece!
Caraças, sou mesmo uma péssima mentirosa. Dizer que não o quero para nada é mentir com quantos dentes tenho.
A Sónia, mulher vivida e esperta, apanhou-me logo na curva. “Aí é? Boa. Então está tudo perfeito. Como ambas queremos que ele seja feliz, com certeza que me vais ajudar a conseguir esse objectivo, não é, Amiga?
Senti que a teia estava completamente urdida. A Mosca chama-se Ivo, a Aranha Sónia. E a estúpida da assistente da Aranha sou eu. Tipo larva….
E disse-lhe que sim, que a ajudava o Ivo a ser feliz. Não podia dizer mais nada sem me comprometer. Sem dizer a verdade. Sem dizer as verdades…
Passados uns dias o Ivo contou-me que vivia com a sua ex. e eu, que não sabia outra coisa, mostrei-me ofendida, zangada, e até espalhei na empresa que ele era um crápula, que andava comigo mas vivia com a namorada, e que nunca a tinha largado.
Haviam de ver a carinha dele, completamente à toa. Mas tinha de ser convincente!
Claro que ele rapidamente me apareceu com um convite para jantar para ficar a conhecer a sua ex,, a realizar-se na casa de ambos, para me provar que ele nada tinha com ela.
Quando ele já se fazia esquecido da proposta, eu lembrei-lha, e a contragosto lá organizou tudo. Respondi com um smile, pois sabia que a Sónia costumava fazer isso. Mas acho que ele não percebeu a dica....
(continua)