sexta-feira, 23 de fevereiro de 2018

Elsa (6)


Há uns anos atrás uma amiga disse-me que ela e o namorado se tinham conhecido num chat de encontros. Eles estão juntos desde essa altura e tudo lhes corre bem na relação.

O único problema é que não podem revelar a ninguém como, na realidade, se conheceram. E então inventaram uma história, metendo no meio um amigo comum, que os teria apresentado um ao outro. E esse amigo era eu, claro está!

Quando me contaram a história, num primeiro momento não percebi a razão de tal segredo, mas depois compreendi. Eles eram apenas uns enormes hipócritas, pois se por um lado consideravam que esses chats eram especialmente destinados a pessoas que andavam só atrás de “engates”, por outro, ambos os tinham frequentado.

E pior, tinham-se conhecido através de um deles. Ingratos, pois deviam estar eternamente agradecidos, pois foi através dessa forma que cada um deles encontrou quem os aturasse…. 

Ainda me lembro quando as pessoas se conheciam através das suas redes sociais, mas das outras, das verdadeiras, daquelas em que se sabe onde os amigos moram e o que fazem. São aqueles amigos verdadeiros, de carne e osso, e que se terão conhecido num qualquer evento social real.

Os tempos mudaram. Agora quase todos os meus amigos conheceram as suas caras metades através das redes sociais Twitter, Face, Google, Instagram, Badoo, eu sei lá. Isto primeiro tornou-se novidade, depois tendência, a seguir moda, e agora, dizem, é o único meio em que é possível conhecer alguém.

Com isto tudo a ocorrer, dei por mim a pensar que não poderei dizer à minha família e aos meus amigos que conheci a Elsa no Metro! E senti-me tão ingrato como os meus amigos que se conheceram num chat!

Como será que os meus familiares e amigos vão reagir quando lhes disser que conheci a Elsa no Metro? Ficam logo a achar que somos uns taradões! Vou é dizer a todos que a conheci no Tinder. É muito mais seguro! 

O pior será quando eles souberem que a Elsa não tem perfil no Facebook nem conta no Instagram! Como é que eles a poderão conhecer de "verdade"? Tremo só de pensar.

Mas é a verdade! A Elsa disse-me que não tem perfil no Facebook nem no Instagram, e nem em nenhuma rede social. E só tem um telemóvel daqueles de teclas e com um ecrã pequenino. Tornou-se uma pessoa estranha neste novo mundo global. Muito estranha mesmo.

Mas foi por não ter um smartphone que ela me viu na carruagem do Metro. É que se ela tivesse um, decerto permaneceria imersa na net e não teria reparado que eu estava a olhar para ela, para aquela mulher pequena e discreta. Coincidência? Sorte? Azar? Felizmente nunca saberei.
(continua)

sexta-feira, 16 de fevereiro de 2018

Elsa (5)


Tanto tempo sem ter ninguém ao meu lado levou-me naturalmente a questionar se não estaria a ser demasiado restritivo, se não estaria à procura do meu Santo Graal. De procurar sem nunca encontrar.

Garanto-vos que nunca procurei defeitos nas mulheres que me apareceram na vida. Antes pelo contrário, pois tentava encontrar certas qualidades que me fariam, caso a relação desse certo, ter um gosto especial. Como a dose certa de sal numa comida requintada.

Sabia no meu íntimo que se encontrasse a dose exacta das qualidades certas me renderia total e absolutamente a essa mulher. E de certeza, para sempre. Só que infelizmente nunca encontrei essa "tal" mistura.

E eu, que sempre desconfiei das coisas perfeitinhas, dei por mim a procurar a mulher com a dose perfeita de qualidades.....

Confesso que fiquei bastante chocado comigo próprio com essa descoberta, mas uma colega e amiga depressa me tentou acalmar. “Descansa que ela vai aparecer!” Claro que não acreditei, mas também não demonstrei o meu cepticismo.

Encontrar “alguém para a vida” não é o mesmo que ir às compras e deparar com uma boa promoção. Julgamos que é uma pechincha e ficamos muito contentes. Mas depois ficamos frustrados quando descobrimos ou que o produto não presta ou que na loja ao lado este estava mais barato.

Considero que encontrar essa tal pessoa poderá ser bem mais difícil de encontrar um trevo de quatro folhas azul bebé. Ou um político incorrupto e verdadeiramente sincero.

Foi aí que cheguei à conclusão que a "tal", pura e simplesmente, não existe! E nunca existiu, para ninguém.

O gostar de alguém será apenas a conjugação de atrações, de oportunidades, de coincidências, de gostar do que se vê, do que se ouve, do que se sente, sem saber e sem querer saber de onde vem esse gostar. Apenas gostar....

E principalmente, manter o gostar, que é, sem dúvida, a parte mais dificil. Manter a chama acesa, e se possível, aumentá-la. E ir mudando a bilha de gás, não vá ele acabar!

E aqui estou eu, depois de ter estado sentado numa carruagem de metro pouco cheia, a olhar para o telemóvel, para as notícias do Sapo, do Observador, do El Pais, da Globo, a ler que o líder norte-coreano tinha acordado com os “pés de fora”, e por isso, furioso.

E a minha vida tanto mudou depois de nessa carruagem de metro ter levantado a cabeça e de ter reparado numa mulher pequena e discreta.

E de essa mulher se chamar Elsa!
(continua)

sexta-feira, 9 de fevereiro de 2018

Elsa (4)

No tempo dos meus pais, raras eram as pessoas que trocavam de emprego. Na verdade, na maior parte das vezes elas nem os escolhiam, pois estes eram arranjados pelos padrinhos. E se estes não fossem padrinhos pelo santo baptismo, passavam a ser pelo santo emprego.

E tal como não se mudava facilmente de emprego, também não se mudava de clube, de religião e principalmente de cônjuge. Mas como tudo isto acabou no espaço de uma única geração.

Invejo os meus pais pela vida que tiveram, e ainda mais pela sua relação. Longe de ser perfeita (eu sempre desconfiei das coisas que parecem perfeitinhas), foi suficientemente estável para permanecerem juntos.

Assim, e naturalmente, desejei sempre ter o que os meus pais tiveram, e de todos antes deles, e que agora caiu em completo desuso: ter alguém para a vida!

Disse-me uma vez um amigo que “não te preocupes que pois mulheres há sempre”. Ele tinha razão, pois efectivamente, mulheres há e haverá sempre.

A grande diferença entre mim e ele é que eu queria encontrar alguém especial e ele queria encontrar alguém que o achasse especial.

Sinceramente não sei qual dos dois estava a ser mais exigente. O único facto concreto é que ele, desde então, teve muitas. E eu não…

Eu queria encontrar a “A Mulher”, uma especial, com um M de Mulher muito grande. E nada mais! Só isso”. Rio-me ao pensar nisso.

Por vezes dei por mim a formular a pergunta “será esta?” Mas o simples acto de me questionar significava que tinha dúvidas e se tinha dúvidas é porque essa não era a tal. É realmente mesmo muito simples.

De repente, deixei-me disso. Senti que estava a viver num casulo sentimental, e apesar de continuar a ser um bocadito “assediado”, resitia às pressões porque, pensava eu, não estava preparado para ter uma relação tal como ambicionava.

Se eu fosse uma pessoa com temor à solidão, tinha aceite uma ou outra situação, pois valeria tudo menos ficar para tio, até ficar com alguém que não amasse, ou que tivesse de mentir acerca dos sentimentos. Será que uma mentira piedosa dessa índole doí menos que as outras?

No fundo, que mal faz estar numa relação sem lá estar, realmente? Não é essa a realidade para tanta gente ao redor deste globo? Será o Amor o único vínculo que  une duas pessoas? Não será tão válida uma relação sem Amor como uma prenhe desse tão nobre sentimento?

Bem sei que posso começar, manter e acabar uma relação sentimental e íntima sem dizer uma única vez “Amo-te”, sem verter uma lágrima, sem ter tido uma discussão. Mas não é decerto esse tipo de relação que quero na minha vida!
(continua)

sexta-feira, 2 de fevereiro de 2018

Elsa (3)


O olhar dela para mim foi um misto de surpresa divertida e de susto, mas reparei que só ficou completamente descansada quando me viu com os dois pés fora do metro, e com as portas da carruagem a fecharem-se, pesadamente, atrás de mim.

Olá. Eu sou a Elsa. E tu, curioso, quem és?” E estendeu-me a mão, um pouco acima do normal, para um aperto de mão.

E eu pensei “Para ti o curioso sou eu? E como te chamarias a ti própria? Super cusca?” Mas ignorando o pensamento, e limitei-me a apertar-lhe a mão e dizer o meu nome, num tom de barítono. “Silas”.

Reparei que ela sorriu ao ouvir o meu nome….. Ela tinha as mãos frias. Devia ser por ter um coração muito quente….Por momentos pensei nela como uma vampira e que me quisesse sugar o sangue. Mas se ela me pedisse com jeitinho eu até deixava.

E ali ficámos, parados, na plataforma do metro, entre passagens de composições e gente sem fim a entrar e a sair. Com tanto barulho começámos a falar ao ouvido um do outro, como se estivéssemos num bar.

Visto que eu não tomava a iniciativa para sairmos dali, a Elsa pegou suavemente a minha mão e disse “Vamos!?”. E eu fui. Eu já vos tinha dito que a seguiria até ao fim do mundo? Acho…

Eu limitei-me a caminhar ao lado dela como se fosse um zombie. Apenas olhava para ela, como se estivesse anestesiado, e não reparava em mais nada. Talvez fosse porque mais nada me interessava, naquele momento.

Saímos numa estação do metro e nem me lembro qual o seu nome, e caminhámos numa “boca do metro” mas juro que nem sei se subi escadas, rampas ou escadas rolantes…..

Eu, serenamente, ia com ela, como se fosse a única opção que tinha, como se fosse a única coisa que tinha de fazer. Apesar de ter plena consciência do que estava a fazer….

Não falámos até o sol nos cegar completamente, à superfície. E quando a vi totalmente banhada de luz, parei para prestar atenção a todos os seus pormenores, invisíveis para mim até aquele momento.

E ela, a sorrir, deixou-se mirar de todos os ângulos. E eu, a sorrir, mirei-a. Ela era divertida, e para mim era divertido vê-la desta forma. Sem uma palavra, sem um julgamento.

Num repente, fechando os olhos fechados mas não o sorriso, levantou os braços e rodou sobre si próprio, lentamente. Para que eu a visse. E eu vi-a, sorrindo.

Aquela mulher pequena e discreta tinha nome, tinha voz, formas, cor, cheiro. Era agora uma pessoa a sério, não mais um vulto com que me cruzo nos transportes públicos, nos restaurantes ou nos centros comerciais.

E mesmo sem a conhecer absolutamente nada, a partir desse momento ela ganhou uma enorme importância para mim, pois tinha-me visto, reparado em mim, comunicado comigo, e até tinha pegado na minha mão….

Senti que ela era diferente de todas as mulheres que tinham passado na minha vida. Ela era especial. Ela era a Elsa.
(continua)

sexta-feira, 26 de janeiro de 2018

Elsa (2)


Tento desesperadamente que os meus olhos se fixem no écran do telemóvel, mas não consigo! Eles fogem sempre para o rosto dela!

E num desses relances vejo-a a rir-se de mim, do meu patético e hercúleo esforço de tentar não olhar para ela, sem o conseguir. E como ela se estava a deliciar com essa imagem.

Incomodado, ergo-me num repente, saindo daquela posição estúpida em que olhamos para o telemóvel, formando uma bossa de camelo, e olho-a, fingindo total desinteresse. Mas eis que ela me fita, séria, direta e desinibida.

Lívido, sento-me novamente. “E agora? És um homem ou um rato? Sabes perfeitamente o que quer dizer esse olhar. E agora, que fazes?

As mulheres belas e desejadas por todos, de tão habituadas a serem miradas, desenvolvem mecanismos para ignorar os olhares indesejados. Benditas sejam.

Mas o raio desta mulher pequena e discreta retribui-me o olhar. Maldita seja!

"Despacha-te. Ela espera por um sim ou por um não. É que a estação para saires está quase a chegar!". E noutro repente, encaro-a, e ela. E ela, também a encarar-me, levanta-se do lugar num jeito felino, e dirigi-se lentamente para onde estou....

Eu fico a olhar para ela, embasbacado, sem conseguir adivinhar os seus pensamentos ou sequer calcular os seus próximos movimentos. Apenas fico a olhar para ela. E como estou a gostar de olhar para ela....

As suas feições são suaves como seda, muito bem acariciadas pelo sol. E esta mulher pequena e discreta passou a ser mesmo muito bonita!

A sua graciosidade no andar faz-me lembrar uma pequena gata, olhando, mirando, cheia de sensualidade. Passa por mim, devagar, dirigindo-me um (falso) tímido e discreto sorriso.

E eu, ali, sentado, parado, apenas a olhar para ela. Sem reagir, sem me mover, apenas a olhar para aquela gata.

A composição do metro parou, abrindo as suas portas, e num movimento ela salta para a plataforma, não sem antes me lançar um olhar, certificando-se de que eu a seguiria.

E eu permaneci sentado. É que aquela não era a minha estação, e por isso não tinha nada de me levantar nem sequer de sair!

Ela olhou para mim, incrédula! E eu sorri. Estava a brincar. Claro que a seguiria. Até ao fim do mundo. Acho….
(continua)

sexta-feira, 19 de janeiro de 2018

Elsa (1)


Estou sentado na carruagem de metro a olhar para o écran do meu telemóvel, alheado de tudo e de todos, aguardando apenas chegar ao meu destino, sem interrupções e sem grandes demoras.

Sinto-me em paz comigo mesmo, apesar da tarde ter sido muito atribulada. Talvez este sentimento tenha a ver com os movimentos ritmados da carruagem do metro. Quem sabe? Mas na minha placidez nem me importa.

Os últimos meses têm sido bastante complicados para mim, com inúmeras desavenças, discussões e desacordos. E como isso me tem desgastado imenso.

Farto-me de ver sem nenhuma atenção as notícias do Sapo, do Observador, do El Pais ou da Globo e levanto os olhos. As pessoas estão tão alheadas como eu estava. Ainda bem, pois desta forma nem reparam em mim, a olhar para elas.

Sempre gostei de olhar para mulheres bonitas. Acho que desde sempre todos gostámos de olhar para o belo. E eu olho não com desejo nem com inveja, mas apenas com admiração pela beleza especialmente dos pequenos pormenores.

Num vislumbre fixo o meu olhar numa mulher pequena e discreta, e tão discreta é que nem reparei nela no primeiro olhar, escondida na sua aura de invisibilidade.

Vejo que ela não se enquadra no meu conceito de grande beleza mas, por alguma razão por mim desconhecida, não consigo tirar os olhos dela.

Por fim, lá recuo no meu olhar, com receio que me perca ou, pior, que seja por ela notado. Finjo olhar novamente para o écran do meu telemóvel, mas este ri-se de mim e parece reflectir apenas a face da tal mulher, pequena e discreta.

Inevitavelmente volto o meu olhar para o seu rosto e perco-me nas suas rugas de tanto sorrir, e os meus olhos dançam ao ver o seu rosto, que parece iluminado de felicidade.

E a partir desse momento essa tal mulher pequena, discreta, tornou-se linda aos meus olhos.

Olho em redor e vejo que ninguém reparava nela. “Serão cegos, ou serei eu?” É que ela transpirava uma tal beleza despojada que já me cegava os sentidos.

Com grande esforço tento retomar o olhar fingido para o écran do meu telemóvel, mas pelo canto do olho detecto que desta vez sou eu o observado. Por ela. E entro em pânico. “Chiça, que ela está a olhar para mim. Fui apanhado!
(continua)

segunda-feira, 27 de novembro de 2017

O 150º POST

Hoje pretendo partilhar convosco algo diferente. Não vou escrever sobre um tema ou sobre uma personagem. Antes quero partilhar convosco um marco importante para mim: a publicação do 150ª Post no xabiverde.blogspot.pt!
Para mim, escrever é fácil e agradável, pois é um exercício de libertação. Deixo apenas fluir livremente a palavra e a ideia, e é a própria alma que se solta das angústias, desesperanças, medos, ódios, paixões e sonhos.
Questionam-me se sinto tudo o que escrevo, e a resposta é: por vezes. Dias há em que todo o meu ser está na palavra, e esta precisa de sair, sob risco de intoxicar tudo o resto.
Outras vezes há em que temo encarnar demasiado outros, tal o sentido de dever que tenho de contar as suas histórias, recheadas de fortes sentimentos e de personalidade. Ainda me lembro a alegria que senti ao contar as histórias do Zé do Tuk-Tuk ou do Mongas, o Submisso.
Assim, e depois de ter escrito 149 posts desde 2014, tendo resultado em mais de 53.000 visualizações lidas lá pelos 4 cantinhos do mundo (confesso que relativamente a esse ponto fiquei bastante surpreendido), e de ter (re)começado a desenhar rabiscos para acompanhar os textos, cheguei a uma encruzilhada criativa.
Obviamente poderia continuar na mesma linha, mas achei seria mais do mesmo, uma não inovação e de redescoberta. Achei que com estas marcas, uma mudança impunha-se.
Comecei com textos de meia dúzia de linhas, abordando com ligeireza temas e pensamentos. Aos poucos introduzi-lhe personagens. Estes textos ficaram um pouco mais extensos, alguns até com pequenos capítulos. E assim continuei, ganhando experiência, esperando por este momento.
E agora, com o 150º post, pretendo marcar uma viragem, e escrever um ContoE conto, claro, com todos vocês.

Assim, até breve. E boas leituras.